Coluna 8 ½ – Medianeras: Mariana, Martín e a Cidade.

Com uma metáfora entre a vida caótica dos habitantes da populosa Buenos Aires e o crescimento desordenado e sem planejamento da arquitetura da capital portenha, o diretor e roteirista Gustavo Taretto construiu em seu primeiro longa-metragem, Medianeras, um conto de amor moderno e universal. A vida na era digital, cheia de irregularidades e isolamento, é apresentada no filme de forma realista, mas ao mesmo tempo poética e divertida. Para os jovens nascidos na década de 1980 – como a que vos escreve – é impossível não se identificar com Mariana e Martín, personagens centrais de Medianeras, que vivem quase reclusos em suas “caixas de sapatos”, como são ironicamente chamados os apartamentos quarto-e-sala na Argentina, e se relacionam com o mundo através de bytes.

Martín, um web designer que está reaprendendo a viver em sociedade após anos de terapia contra a síndrome do pânico e a hipocondria, acredita que a arquitetura de sua cidade, Buenos Aires, reflete o caráter de seu povo, repleto de diferenças estéticas e étnicas, que vive a vida sem pensar no futuro. Para ele, “as separações, os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação e de desejo, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, o stress e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção civil”. Desses males modernos, Martín padece de todos, à exceção do suicídio e da obesidade. Já Mariana é uma arquiteta que nunca construiu nada e que se sustenta trabalhando como vitrinista. Após o término de uma relação de quatro anos, ela tem que reaprender a viver sozinha em seu “duplex” de 50 e poucos metros quadrados.

Martín e Mariana moram na mesma rua e não se conhecem. Ambos são almas solitárias que buscam relacionamentos nos lugares mais improváveis. Martín tem em Susu, cadela deixada por uma ex-namorada, sua única companheira e razão para sair de casa, já que todas as suas necessidades são supridas através da internet. Mariana tem nos manequins que monta para a vitrine de uma loja de roupas sua fonte de ligação com a humanidade. Buenos Aires (e o caos urbano) é mais que o pano de fundo dessa história tão contemporânea: os edifícios, sujos e díspares, os fios elétricos à mostra, o trânsito e o céu cinza são elementos essenciais da trama, verdadeiros protagonistas que enclausuram e separam as pessoas umas das outras.

O filme nos faz pensar como a evolução da tecnologia e o crescimento descontrolado das cidades impactou as relações humanas. Quando abrir a caixa de entrada e encontrar e-mails novos torna-se sinônimo de felicidade, é fácil entender por que vivemos numa época marcada pelas chamadas “doenças da alma”. Descobrir a melhor maneira de se levar uma existência que concilie os excessos da vida moderna à paz de espírito é ainda um mistério, ao menos para mim, mas o que se apreende com Medianeras é que estar aberto ao desconhecido pode ser um dos caminhos…

Carla Valois

Apaixonada por cinema, moda, música e artes audiovisuais, deixei meu diploma de Direito em Maceió e me mudei para São Paulo para seguir minha verdadeira vocação: escrever.

    • Elton Helio
    • dezembro 1st, 2011

    Sensacional. O roteiro é bem construído e mostra, não apenas, o comportamento do jovem argentino, mas desta geração globalizada e sem tempo pra nada, nem para dar bom dia para seu vizinho.
    O filme tambeem mostra o caminho inverso à tecnologia, e a sacada com o livro "Onde está Wally" é genial.

    add_filter( ‘avatar_defaults’, ‘fb_addgravatar’ ); }
  1. Preciso ver *__*

    add_filter( ‘avatar_defaults’, ‘fb_addgravatar’ ); }
    • Raphael Sampaio
    • novembro 30th, 2011

    Vou ter que ver este filme! Interessante esse seu comentário sobre "Doenças da Alma"… dizem que a anorexia é um reflexo de um alma que tem ódio extremo de si mesmo. Mas acho que esse não é o ponto que o filme quer chegar. Irei assistir primeiro

    add_filter( ‘avatar_defaults’, ‘fb_addgravatar’ ); }
    • putacranio
    • novembro 30th, 2011

    O filme é liiindo! Recomendo muito. >.<

    add_filter( ‘avatar_defaults’, ‘fb_addgravatar’ ); }
    • carmem lobo
    • novembro 29th, 2011

    maravilhoso filme!não sou da geração dos bytes, mas interagi muito bem com esse roteiro.é muito real.
    estou acompanhando suas postagens, transparentes, bem cuidadas e que nos faz procurar uma sala de cinema depois de le-los.
    .

    add_filter( ‘avatar_defaults’, ‘fb_addgravatar’ ); }
  2. Up up cinema argentino!! Me interessou. Tu viste este no cinema ou vazou no MKO?! x)

    add_filter( ‘avatar_defaults’, ‘fb_addgravatar’ ); }
  1. No trackbacks yet.