Gustavito e A Bicicleta

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Só o amor constrói uma revolução que começa no corpo.
Depois de seu primeiro álbum em 2012, o mineiro Gustavito retorna aos bons ouvidos com mais uma bela  obra. Desta vez sua energia ampliada nos oferece mais um olhar panorâmico sobre os novos criadores da nossa música. Também assinando o seu novo trabalho, o coletivo intitulado “A Bicicleta” preenche de emoções e timbres orgânicos uma seleção de composições conectadas na espiritualidade, fixadas nas percussões africanas e vestidas na beleza da poética mineira cada vez mais necessária na canção humano-global, a resistência através da poesia que desencadeia os demais processos de expansão da música nas sensações transformadas em melodias flutuantes na alma e no corpo.

Depois de três anos de pesquisa para este novo disco, Gustavito retorna ainda mais belo e sensível. São onze novas composições elaboradas e lapidadas por parceiros na leveza da “iconia” poética da bicicleta e seu equilíbrio suave para seguir ao vento do movimento e direção para um olhar panorâmico sobre os caminhos mais simples, seja ele no ponto de vista urbano ou interiorano.

Um dos membros do coletivo criativo musical Casa Azul na capital mineira, Gustavito transformou seus intercâmbios artísticos pelo Brasil e sua recepção na Casa para expandir suas referencias e planar um som tropical e multicultural do ponto de vista do regionalismo brasileiro e também a cronologia de suas histórias neste momento da musica. Uma delas é a inserção da marchinha hino do bloco de carnaval de Belo Horizonte, Pena de Pavão de Krishna, um dos modelos do despertar e resgate do carnaval na cidade nos últimos anos e que envolve uma grande rede de articuladores e artistas que revitalizaram o carnaval autoral da capital mineira. A canção se chama “Quilombo Oriental”, a mesma que nomeia dignamente este novo trabalho.

Um disco coerente na entrega, coerente na musicalidade e ainda mais na relevância de sua existência. A representatividade marcada da união pela beleza da transformação de um novo tempo que acontece não apenas em Belo Horizonte, mas uma representação da resistência brasileira com a força do coletivo pela arte e sua democratização cheia de fatos e verdadeiras histórias já escritas, mas aqui lindamente cantadas.

Uma seleção de respeito e delicadeza oferecida para os experimentadores de novidades necessárias para um novo olhar à nossa arte e nossos artistas.

Gustavito e A Bicicleta é:
Gustavito Amaral: voz e violão
Felipe José: baixo
Irene Bertachini: voz
Yuri Vellasco: bateria
Luana Aires: voz
Di Souza: percussão
Pablo Passini: guitarra
Deh Mussulini: voz
Convidada especial na faixa “Quilombo Oriental”, ”Mal de Família” e “C’est la: Joana Queiroz
Arranjos por “A Bicicleta”, exceto arranjos vocais de “500 Gargalhadas” por Rafael Matini e “C’est la” por Rafael Pimenta

Todas as bases ao vivo por Kiko Klaus no estúdio Camarada
Vozes gravadas no estudio Casa Azul por Rafael Dutra
Mixado por Kiko Klaus no estúdio Camarada
Masterizado por Carlos Freitas no estúdio Classic Master
Fotografias de Henrique Bocelli
Arte Gráfica de Mariana Fonseca e Flora Lopes

Saiba mais:
Site do Gustavito (baixe todos os discos livre)
Facebook do Gustavito
SoundCloud do Gustavito

Quilombo Oriental – 2015
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1. Massa com Dendê
2. Bença
3. Xote dos 26
4. Quilombo Oriental
5. A Moszca
6. Parada Multicor
7. 500 Gargalhadas
8. C’est La
9. Talismã
10. Mal de Família
11. Aflorou

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Perfil musicoteca: Rashid. Foco na missão.

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Rashid: palavra de origem árabe que significa “justo, honesto”. Mas é também a alcunha artística para Michel Dias Costa, rapper paulistano de 26 anos e 13 anos de carreira.

Por Igor Cruz

Em uma segunda-feira de tarde ensolarada, marcada pela alegria juvenil de um poeta urbano, claramente feliz ao receber outro ser urbano de mochila nas costas – após atravessar a cidade de sul a norte em pouco mais de uma hora e meia de viagem de transporte público –, acontece um encontro de ricas prosas, para falar de um assunto que interessa a ambos e a um número expressivo de fãs. No início de uma avenida “ladeiroza”, sou recebido primeiramente pela mulher do jovem a ser entrevistado, Daniela Rodrigues. Adentro o sobrado claro na região de Lauzane Paulista, e a segunda etapa dos cumprimentos de boas vindas é concluída pela assessora de imprensa. Na sequência, três garotões ao maior estilo skatista, cada um deles debruçado ao seu notebook, trabalhando, recebem, com uma simpatia efusiva, a visita do “patrão”: “E aí, beleza?”.

Água para o viajante acompanha o sorriso do anfitrião. Em seu home studio (ou escritório, como Daniela prefere chamar o espaço), no andar de cima do sobrado, onde Michel gosta de se concentrar para compor e experimentar as bases que estarão nos discos e nas ruas, sentamo-nos para conversar de forma descontraída. Dali em diante, percebi o quanto é bom falar sobre rap, música e seus desdobramentos.
Michel, agitado entre uma resposta e outra, mostra-se otimista e determinado, como promete a expressão criada por ele mesmo: “Foco na missão”– que já virou marca de seus shows, dos bonés que comercializa e que, segundo ele, significa “levar a mensagem que a gente acredita para as pessoas e colocar o rap em um patamar de grandeza na música popular brasileira”.

Rashid começa a me contar que antes de arriscar suas próprias letras “queria mesmo era ser grafiteiro”, mas aos 12 anos de idade já escrevia suas rimas, abordando política, mesmo “sem conhecer patavinas sobre o assunto”, sonhando, um dia, poder subir ao palco. Na época em que morou na cidade de Ijaci (MG), próximo a Lavras, região de Ouro Preto, entre 13 e 17 anos de idade, chegou a grafitar na rua, enquanto pensava que as frases que lia nos muros eram dos próprios grafiteiros. Depois, descobriu que os versos eram de rappers, passando, adiante, a criar seus próprios trechos de poesia suburbana, que mais tarde se tornariam letras para serem musicadas.

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Ainda na adolescência, integrou dois grupos formados por amigos, passando assim, a compor com mais frequência. Aos 16 anos, já participava de batalhas de freestyle, chamando a atenção de MCs mais experientes. Ele conta que “a parada das rinhas [dos MCs] veio mais tarde, em 2006 (…) e numa segunda edição, coincidentemente quem ganhou foi um tal de Emicida [um dos principais nomes do rap brasileiro, atualmente]. Foi lá que eu o conheci. Eu e o Projota – meu amigo de infância – começamos a comparecer a esses encontros. Foi aí que nasceu a amizade dos três, na batalha do Metrô Santa Cruz”, diz-se das mais reveladoras “batalhas de rimas” do Brasil (ambiente comum para quem pretende ser um grande rimador), de onde também foram revelados nomes do gênero, como Rael e Criolo.

O rap, sempre atuando de forma independente, ganhou mais popularidade nos últimos dez anos. Não há casos de grupos de hip hop brasileiro que tenham se vinculado a alguma grande gravadora. Racionais MCs, a banda mais popular do gênero, encabeçou o sucesso de outras anteriormente consideradas menores. Rashid, um dos rappers que comanda essa linha de frente, diz que recentemente recebeu proposta de uma gravadora e distribuidora, mas relata certo “ciúme” do que já foi criado por ele e confessa que “às vezes faz falta ter alguém que pudesse investir mesmo, porque eu tenho muita ideia anotada e que não consigo realizar. Eu não tenho dinheiro para produzir tudo – CD, camiseta, música e clipe – então, um monte de ideia morre ou fica anotada, para um dia, quem sabe em 2025 [diz sorrindo], a gente consiga colocar em prática. É tudo concentrado na gente. Imaginamos: ‘como uma gravadora faria para fazer tudo isso?’”.

O gênero cresceu, além de tudo, profissionalmente. Vendas de discos, camisetas e acessórios, aproximação de fãs e shows lotados – dos centros culturais aos festivais de rua – mostram-se uma realidade comercial viável. Michel me conta como pensou com Daniela, por exemplo, o lançamento do último disco: “O que uma grande gravadora faria? O que o Jay-Z faria? Pensamos em tudo, nas ações de marketing e ainda mais. Pode ser que uma gravadora nem trabalhasse dessa forma. A gente até podia colocar na rádio e pagar jabá [prática usada para ‘compra’ de espaço em rádios], mas isso a gente não faz, então vamos espalhar o máximo que a gente pode”. Se ele e sua mulher se consideram bons empreendedores? “Acho que sim. Obtivemos sucesso dessa forma e tem muito mais para crescer”. A internet, uma das principais responsáveis pela alta visibilidade dos novos nomes do estilo musical periférico, foi e ainda é parceira de Rashid, durante todo este tempo de produção.

O êxito da carreira de Rashid é endossado pelas suas redes sociais – Facebook, Twitter e Instagram –, na expressividade de seus números: mais de um milhão de “likes”, 179.000 e 90.000 seguidores, respectivamente. Ele está à frente de suas publicações online, mesmo Daniela tendo breves participações. Esta me conta que já venderam em torno de 30 mil discos físicos e já perderam a conta dos downloads: “O Que Assim Seja teve 70 mil na primeira semana, o Confundindo Sábios também tem números parecidos”.

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Enquanto isso, Racionais MCs, ícone máximo do rap no Brasil, com 20 anos de carreira, acumula 1,5 milhão de discos vendidos, além dos quatro milhões de cópias piratas. O grupo conta com cinco milhões e meio de “likes” no Facebook, 103 mil seguidores no Twitter e quase 35 mil no Instagram. Rashid não é só um nome artístico, é uma equipe, uma empresa que funciona com o espírito da periferia, mostrando-se muito produtivo na especialidade de mobilizar jovens. Daniela Rodrigues, diz que o rapper é focado em sua missão e não é dado muito ao lazer, “está sempre trabalhando, escrevendo, fazendo instrumentais ou gravando guias no home studio, não para”.

O rapper segue ainda fechando parcerias com outros nomes importantes do gênero musical como Emicida, Kamau, Projota, Rael, Tássia Reis, Flora Matos, Lurdes da Luz, entre outros. Afirma que as aproximações entre rappers “favorece o movimento e fortalece o gênero”.

Carrega em seu histórico shows lotados, em várias cidades do Brasil, marcando presença em grandes eventos como Virada Cultural, Circuito Cultural Paulista, Circuito Sesc de Artes e apresentações no South by Southwes (SXSW), um dos maiores festivais de música e tecnologia do mundo, que aconteceu no início de 2014, em Austin, capital do estado do Texas, nos Estados Unidos. Com a agenda cheia desde o lançamento de sua última mixtape, Rashid segue “confundindo os sábios” e sem perder o “foco na missão” pelas cidades brasileiras por onde passa.

EXTRAS SOLTOS DA ENTREVISTA-PERFIL (SEM CORTES), COM EXCLUSIVIDADE, AQUI, NA MUSICOTECA.

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Pergunto da chancela que os pais lhe deram para continuar apostando no RAP: “Começou a rolar um lance de, ‘não, está dando certo’, foi quando começou a entrar um dinheiro, daí a família disse ‘ah, tudo bem’. Acredito que eles não estão errados em resistir, mas quando começou a rolar – eu era ligeiro – e até esses dias eu falei numa palestra, ‘o dinheiro que eu pegava eu não gastava com roupa, roupa de rapper e tal’, o primeiro dinheiro que eu peguei, um dos primeiros cachês, tipo uns R$ 150,00, eu cheguei em casa e falei para minha avó, ‘vó, hoje tem pizza’, sabe? Esse tipo de coisa que eu fazia. E eu disse na palestra ‘mano, você tem que mostrar para a sua família que você não está pensando só em você, você não está fazendo a parada de molecagem [irresponsavelmente], não estou de brincadeira, indo lá porque eu não quero trampar [trabalhar], e o dinheiro eu ganho e compro um boné e uma calça mais larga que eu puder e pronto’. Então é uma coisa nossa, é um trabalho, e quando começou a ‘pingar’ dinheiro, eu ia ao mercado, ajudava nas compras de casa, e fui mostrando que a parada era séria, para começar a rolar esse apoio, e a melhor coisa é você ver a sua mãe, o seu pai, sua avó no show e tal”.

Rashid se emociona ao dizer quando vê sua avó, o seu pai e sua mãe nos shows, “meu pai já foi em dois shows, minha avó também, ela estava na primeira fila, minha mãe, como está em Minas, veio esses dias e foi ao show e pôde ver e daí é ‘muito louco’ você ver os seus pais ali, daí você está descontraído no show e você olha para a sua mãe e ela está ali com os olhos cheios de lágrimas”.

O maior personagem na minha música é a minha mãe, porque a gente foi pra lá [Minas] e ela criou os três filhos, e lá, sozinha, já tinha separado do meu pai, acabou virando uma parada recorrente nas minhas músicas porque é um símbolo de resistência. Ela trabalhava na TELESP [empresa de telefonia do Estado de SP] aqui e foi pra lá para trabalhar numa fazenda de café, como boia-fria. Isso criou uma imagem de heroína para mim. E graças a ela eu estou aqui e meu irmão está aí, querendo ser jogador de futebol, minha irmãzinha está crescendo muito também, então a missão da minha mãe foi muito bem feita.

A relação com o meu pai hoje é maravilhosa, no começo do RAP era difícil, por conta do receio e ele dizia ‘vai procurar um emprego, é melhor’ e eu dizia, ‘não, pai, vai dar certo’, então a gente brigava muito por causa disso, mas agora a minha relação com o meu pai está mais tranquila. É que eles [o pai e a mãe] se separaram quando eu era muito pequeno ainda, eu não tinha nem um ano, mas eu sempre o via, independentemente de onde morava. E quando eu morava em Minas, eu vinha nas férias, e foi em uma dessas férias, aqui na Rua Oito da Lauzane que eu conheci o Projota… Enfim, minha relação com ele é ótima.

Talvez por influência de sua avó, mãe de seu pai e seu avô, pai de sua mãe “que tem uma grande presença também, pelo fato de trabalharem muito”, complementa Rashid. “Eu me lembro de quando meu avô faleceu, há uns seis anos, de me dar uma paranoia de querer ser igual a ele, porque o meu avô não parava de trabalhar, ele estava velho e tinha horta e cuidava o tempo todo. E minha avó, que ainda está viva, ela trabalha bastante, tem 64 anos e tem um emprego, sai de casa todo os dias para trabalhar, cuida de uma outra senhora e tal, por isso são personagens forte para mim”.

Uma curiosidade interessante é o fato de os três garotos, que eram fãs, agora trabalharem com ele. Michel revela que os três formavam um grupo chamado “Bonde do Cartaz, que eles mesmos faziam e iam aos shows com uns cartazes enormes. E uma coisa que acontece é que você acaba conhecendo melhor os fãs que vão a todos os shows. Você faz um show em Santos, a pessoa está lá, você faz no Rio, a pessoa está lá, em São Paulo, a pessoa está lá. Já teve casos de darmos carona para os fãs em van. E com os moleques foi assim, foi rolando uma proximidade pequena no início, daí – você sabe como são as coisas [diz, pensativo]… Um belo dia, postei no Twitter: ‘estou precisando aumentar minha equipe de vendas, alguém se habilita? Chegou uma centena de e-mails e entre esses e-mails estava o e-mail deles, daí falei com eles, como ia ser, porque a gente estava muito no começo, não tinha muito CD ainda, quase não tinha camiseta, mas expliquei que a gente ia construir uma parada juntos e acreditava que se tudo desse certo, lá na frente estariam com a gente também, e veio mais gente, saiu gente, entrou gente, e eles estão aí comigo, desde 2011”.

Atualmente, é perceptível, jovens de outras classes sociais, que não periféricos (detentores do estigma midiático, “emergentes”), em shows de RAP. Muitos jovens abastados e até os ditos “culturetes” ou “hipsters”, o que indica um maior alcance de popularidade no mercado musical. Sobre essa diversidade, Rashid aponta que “é natural que isso aconteça. O RAP é uma música nova, tem 40 anos apenas. Se você for ver os The Rolling Stones já tem 50, então é um caminho natural, eu vi que de uns dez anos para cá isso aconteceu e eu acho muito bom, primeiro porque não dá pra eu colocar limite, para aonde minha música quer chegar. Isso acaba fazendo com que as pessoas vejam e escutem outras coisas, e tem o lance que, ‘ser boy’ também é uma condição mental, porque às vezes o cara tem dinheiro, mas ele não é boy, e às vezes o cara não tem dinheiro e ele é boy, é mais um lance da atitude, do caráter da pessoa. Às vezes ele é boy, ouve um RAP crítico e ele pensa ‘é verdade, não é?’, preciso rever conceitos. Pode ter um lance de conscientização, acho que isso acontece também. Isso quebra uma barreira, aproxima a gente cada vez mais da igualdade e essa sempre foi a luta do RAP, eu jogo a semente e ela vai brotar em quem tiver com o coração aberto.

Sobre as roupas que o artista usa em seus shows – a moda RAP – pergunto se ele pensa se já conseguiu lançar tendência com a sua marca e sua coleção de roupas e bonés. O rapper prestigia tal fato declarando que “Eu lembro quando a gente lançou a linha de bonés, “foco na missão” e daí eu comecei a vender… daí aparecia dois ou três no show e a gente ficava feliz pra caramba, daí começou a ‘pipocar’ [aparecer muitas pessoas de boné] e aquela fila de gente na frente do palco, todo mundo com boné. Você pensa, ‘caramba, que legal’, e os meninos [os três garotos que estavam trabalhando na sua casa com seus note books] trabalhando muito para vender. Isso acaba lançando uma tendência, porque a gente é o maior representante, o maior modelo da minha marca sou eu, se eu não usar, também não vai vender. Os moleques até me dizem, ‘mano, usa essa camisa aqui hoje, porque está precisando vender’ daí quando acaba o show, vende bastante. Eles estão ligeiros já. Acho que isso, de certa forma prova, essa influencia, é normal.

Às vezes a gente vê gente diferente, vestida diferente, mas não muito, porque eu acho que estilo visual também se propagou muito e até o funk aderiu um pouco as roupas do RAP, então o visual já se misturou um pouco. Você não consegue mais olhar e saber quem é quem. E você vê que essa rapaziada também está aberta a se identificar com o seu som, ouvir a parada, comprar o CD, colar no show. Já aconteceu de eu formar casais no show, o moleque vem e pede pra eu mandar uma mensagem para a menina que ele conheceu, o moleque da favela, a menina do Morumbi.

O prodígio rimador passou pelas principais periferias da cidade de São Paulo, antes de morar em Minas, como esclarece: “nasci aqui no Lauzane, depois me mudei para a Zona Sul, Palmares, depois Cocaia e depois Zona Leste, Jardim São Carlos e Arthur Alvim, onde a minha família materna habita, e quando eu fiz treze anos, minha mãe resolveu mudar para Minas para ajudar meus avós que moravam lá. (…) Aqui eu comecei a escutar RAP, com meus primos, os moleques da escola, mas foi quando eu fui para Minas, que era bem interior mesmo, é que eu me encontrei com o RAP, de querer ser [rapper], colocar as roupas e ficar na frente do espelho, querendo ser o Brown [Mano Brown, líder e um dos vocalistas do grupo Racionais MCs] que foi a minha primeira influência, com o disco ‘Sobrevivendo no Inferno’ e depois é que fui conhecer o RAP da ‘gringa’, Afrika Bambaataa e tal”.

É sabido que o “ritmo e poesia” (tradução para RAP – rhythm and poetry – em inglês) sustenta-se de letras que deflagram uma sociedade marcada por injustiças, sob a força de uma realidade “cruel”, como na própria linguagem dos rappers. Para o garoto, filho mais velho de pais separados, que “grita” livremente sobre bases eletrônicas, “sua infância não foi um mar de rosas, não” – como cantou Mano Brown em uma de suas músicas mais famosas, “O Homem na Estrada”.

Quando pergunto se alguma dificuldade da vida o influenciou, desabafa: “Sim, passei algumas coisas, é um clichê do RAP, mas a gente vem influenciado por essa geração que coloca para fora muito o lance do racismo, da afronta policial, os conflitos na rua, abandono do governo. Nos anos 90, que era muito difícil para quem morava na periferia. Daí quando eu me mudei para Minas Gerais, cheguei lá [e vi], meus primos andavam descalços, moleques de 11, 12 e 13 anos, a ‘barrigona’ desse tamanho [gesticula o inchaço da barriga dos garotos]… Então, era um descaso muito grande e ainda é. Eu penso sempre nisso, o lance da miséria, mas só é visto nos grandes centros e na favela. Daí você vai para o interior, roça, é uma parada absurda também, você diz ‘caramba, isso aqui ninguém olha mesmo’. Lá as pessoas olham e fingem que não existe, e aqui ninguém nem olha, tá ligado? Você tem que buscar lenha, porque não tem gás. Então muita coisa me influenciou.” “Eu me lembro que eu gostava de DMN [grupo de RAP de São Paulo] e eles pregavam muito a auto estima e mesmo o Racionais MCs, antes do ‘Nada como um dia após o outro’, tem esse lance da auto estima, então eu sempre gostei muito desse tipo de RAP, justamente por causa dessa parada, porque eu acho que a auto estima é primordial na época para nós. São dificuldades que eu nem falo tão claramente na minha música, mas quem acompanha, entende um pouco, eu falo de outra forma e sem dúvida isso me influenciou muito.

Em 2012, Rashid declarou ao jornal O Globo, do Rio de janeiro, que gostaria de “ver um rapper no patamar de Ivete Sangalo”. Pergunto a ele se esta cena atual do gênero já não alcançou o mesmo nível de respeito. Ele acredita que “não no nível da Ivete Sangalo, mas em um patamar grande de respeito. O Criolo [rapper paulistano que ficou popular com o nome de sua música ‘Não existe amor em SP’] conseguiu isso, já. Os Racionais MCs, acho que já tenha esse nível de respeito bem alto e o dia que acabar vai continuar sendo uma das maiores bandas da música popular brasileira – da música paulista já é. Mas acredito que a gente seja muito grande dentro dessa bolha underground [referência à independente], e Criolo e Emicida já estouraram essa bolha.

Se analisarmos os perfis de redes sociais na internet de uma das artistas mais populares e mais bem pagas do Brasil – Ivete Sangalo – encontra-se a obviedade na expressão dos números: Mais de 11 milhões de “likes” no Facebook, 11 mil seguidores no Twitter e 2,53 milhões no Instagram. A cantora já possui 20 anos de carreira, 17 discos lançados (atingindo uma marca de 15 milhões de vendas), cinco DVDs, acumula a marca de 150 prêmios nacionais, alta exposição nas TVs abertas e muito requisitada por campanhas publicitárias, nicho ainda desconhecido pelo RAP.

Paralelamente ao hip hop, o funk, que já não se limita mais a uma manifestação exclusivamente suburbana, de desejo de consumo e liberdade sexual, cresce vertiginosamente sem qualquer tipo de barreira, de forma igualmente independente. E se eu penso que o “pancadão” ou o “ostentação” (subgêneros do funk) pode ser uma pedra no sapato do RAP, engano-me, como sugere o “versador” perfilado.

Em 2010, Rashid lançou “Hora de acordar”, o primeiro EP do rapper que, desde então, começou a fazer shows com o inseparável parceiro DJ Mr. Brown. A partir daí, a cada ano, Rashid lançava um novo CD, e a cada CD, surgiam novos fãs por todo o Brasil. Em 2011, o MC lançava a mixtape “Dádiva & Dívida”. Em 2012 lançou o disco “Que Assim Seja”, e em 2013, se consolida ainda mais no rap nacional, ao lançar sua última mixtape, “Confundindo Sábios”, que, além de contar com colaborações e participações especiais, liderou o ranking do iTunes durante uma semana.

A visibilidade do rap, supostamente é acompanhada também por um novo momento político no país, como sugere Michel: “O fato é que o Brasil mudou. Você chega numa quebrada e você um moleque de dez anos com celular, ouvindo um funk ou ouvindo um RAP. Em Minas eu me lembro de colocarem celofane [papel] na frente das TVs preto e branco, para dizerem que era colorido. Hoje em dia você entra numa casa e vê uma TV de led, som [aparelho], computador. Então com certeza esse momento político acaba influenciando”.

Quando digo que já ouvi a sua música numa rádio (105 FM – rádio popular de São Paulo especializada em RAP), ele me diz que “a Transcontinental [outra rádio especializada de São Paulo] também toca o nosso som às vezes, mas tem uma rádio grande no Rio Grande do Sul que também toca. Eu sei porque eu recebo os direitos [autorais] e o pessoal ainda diz nas redes sociais ‘olha, está tocando Rashid na rádio agora’, porque a gente tem muitos fãs por lá, também” [finaliza dando pistas de seu orgulho].

Pupo Ico

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Ele só tem 17 anos. Imagine quando tiver 18!
Primeiramente gostaria de agradecer o Pupo por fazer essa capa do seu próprio lançamento aqui na musicoteca. Achei genial sua tradução estética para o seu trabalho e suas referências….
Encontrei o “Pupo Ico” em uma festa muito louca lá em São Luís do Maranhão, em dezembro, numa gostosa tarde de domingo com muita música boa e artistas jovens e geniais fazendo um som ali na sala da casa de um aniversariante glorioso, que em breve, também lançará seu belo trabalho por aqui. Eu já estava curioso para conhecer o Pupo, pois havia acabado de saber que ele tinha feito um clipe genial de um amigo músico maranhense, e eu havia gostado muito da estética e tal, então me disseram; logo o Pupo ico vai chegar aí!

Ele veio com um computador, alguns cabos, e um teclado korg que eu não sei se era dele exatamente, mas enfim! Até então eu não sabia que o Pupo ico também fazia um som autoral e que já tinha um disco inteirinho pronto. Já haviam me adiantado sobre a possibilidade de ele ser um robô ou um extraterrestre, ou algo do gênero devido sua capacidade espetacular de criação digital e sua linguagem de ícones apenas usando o computador. Quando eu conheci o Ico foi paixão logo de cara. Aquele olhar estranho e tímido sorriu e me pediu um beijo! Eu dei! (rs).

Daí foram dias, diiias descobrindo as loucuras super elaboradas do universo eletrônico de Pupo Ico por todos os lugares e carros e festinhas que andávamos. O rapaz é estudante e já nos traz a dúvida de como ele irá discotecar em festas que não são legalmente liberadas para menores de 18 anos. Mas isso será o de menos. Pupo é multimídia em sua essência, deste suas criações feitas no photoshop e programas de edição de imagens, o rapaz consegue nos entregar muito além do agora. Um modernista da era digital e de um turbilhão de informações pela construção de novos sentimentos pós internet.

Seu primeiro disco é um experimento maduro e esclarecedor do ponto de vista da técnica e do bom gosto dos novatos na música que aperfeiçoaram seus ouvidos apenas através de boas influencias. Um reflexo da qualidade do gosto de uma geração que se preocupa com a qualidade da entrega, e Pupo ico não fica para trás. Utopian é inteiramente concebido e produzido por suas mãos e em seu computador diretamente do seu lar.

Nas dezenas de camadas de eletrônicos, iremos encontrar do dubst, chillout, deep house, vaporwave e nu disco, todos intercalados com muita base inspirada no chiptune e house, além de pirações com sons de sistemas operacionais, referencias do cinema pornô, cultura oriental e colagens de clássicos da música eletrônica dos anos 90 e 2000.

Vale muito a pena conhecer e sentir do que essa geração é capaz de criar apenas com as referências de linguagem dispostas hoje no mundo virtual. O conflito de sua realidade suportada por dezenas de plataformas e ferramentas livres é um banquete para seu processo transgressor a favor da arte plástica e multimídia, sem se preocupar com o preconceito acadêmico e técnico que cada vez mais perde relevância para a contra-prova de qualidade nos apresentada a cada descoberta de um artista independente.

Vale super a pena reconhecer o Pupo e segui-lo em suas redes.
Original, super-estético e sensível é o lugar espacial construído por Pupo Ico.

Saiba mais:
Facebook do Pupo ico
SoundCloud do Pupo ico
Instagram do @IcoDerg

Utopian – 2015
Utopian-Capa
1. The Sound of When Someone You Miss is Online
2. GeoCities SiliconValley
3. Pupo Club
4. It’sNot Porn
5. Amant
6. H e z
7. Music That’s Fresh and Delicious
8. AOLメールサービス
9. THROWBACK (feat. iCoderG)

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Adicionado: 11/03/2015
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Gab Mathias

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Vamos acordar que a vida é sonho também.
Há alguns meses o amigo e produtor musical Luíz Piazzeta me apresentava o seu último trabalho de produção musical, o primeiro álbum do paranaense Gab Mathias, Amor Sincero. Desde então foram várias visitas da minha alma à conexão proposta em sua natural música. Entre essas minhas visitas auditivas, em sua maioria acompanhado de amigos próximos e outros ruídos paralelos, demorei um pouco mais pra me conectar com o tempo e o clima de sensações delicadas apresentadas em seus coros, harmonias e no equilíbrio dos acordes que pude encontrar com maior intensidade e propriedade em audições particulares e de peito aberto. Demorei para entender o que senti e o que me faria transformá-lo em um ponto de verdade entre o meu tempo e o tempo da obra. Amor Sincero deve ser verdade, naturalidade e equilíbrio dos encontros e das transformações, e foi esse o meu aprendizado ao amadurecer a obra de Gab desde que o primeiro contato foi estabelecido. Hoje é o momento em que me reconheço entre momento e intenção desse disco dentro do que sou. Sem forçar o tempo, pular as ondas da vida e respeito a sinceridade que me aparece hoje. Hoje, porque havia de ser.

Na busca pelo conforto das realidades que nos cercam pude reconhecer e desfrutar do colo dessa seleção especial que reune amor e verdade em sua concepção, desde as composições até sua construção artística e técnica. A sensibilidade de Piazzeta na produção musical solta a canção no ar com os deliciosos coros de ar e de calor. Sem contar que a Janaina Fellini está plantadinha ali naquelas vozes de luz! Não seria por acaso esse disco chegar até a musicoteca. E o Fred Teixeira também nos serve boas doses de manuseio orgânico no tratamento técnico das canções… Relaxaaaa-ar aqui! Foi assim que acabei concluindo a proposta da liberdade disposta em todo o processo até a arte gráfica concebida por Luiza Rosa, que estou curioso em conhecê-la pessoalmente nesses acasos da música, achei um capricho a identidade sugerida entre voz, natureza e equilíbrio.

Se você busca um encontro com a liberdade espiritual das sensações em mantras genuinamente orgânicos, dar o play neste disco talvez te desperte para um momento de reconexão com o mundo real das comunicações energéticas sem fio e bytes, para além das ondas invisíveis, mas para as profundezas de nós mesmos.

Se você estiver em Curitiba hoje, você poderá aproveitar para assistir ao show desse trabalho às 20h no espaço Realejo Culinária Acústica. Os ingressos custam R$12 e sem classificação de idades. Ótima oportunidade se alimentar de boa arte na cidade. Você pode clicar aqui neste link para saber todos os detalhes do show.

Ficha Técnica de Amor Sincero, 2014
Composições: Gab Mathias
Produção Musical: Luís Piazzetta
Engenheiro de gravação: Luís Piazzetta
Técnicos de gravação: Luís Piazzetta, Fred Teixeira e Rogério Naressi.
Gravado na Gramofone +Musical entre agosto e setembro de 2014

Voz: Gab Mathias
Back Vocal: Luís Piazzetta e Janaina Fellini
Coro: Noélle Bonacin, Patricia Demenech, Kelly Domingues, Cristiane Souza, Karuã Daros, Rogério Naressi e Luís Piazzetta.
Violões: Luís Piazzetta
Baixo: Thiago Duarte
Percuteria: Valderval de O. Filho
Flauta: Stéfanos Pinkuss
Arte Gráfica: Luiza Rosa

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Amor Sincero – 2014
Amor-Sincero-Gab-Mathias-CAPA
1. Divina Habilidade
2. Dança de Trança
3. Angelus
4. Religião Consciência
5. Viajante de Passagem

http://www.amusicoteca.com.br/wp-content/plugins/downloads-manager/img/icons/default.png Download: Gab Mathias - Amor Sincero - 2014
Adicionado: 07/03/2015
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